Arquivo de novembro, 2011

Foram 32 posts, 4 meses de contato constante, pautas improváveis, pesquisas frequentes, apuração, visitas aos locais desconhecidos… Mais de 1.000 acessos para um trabalho acadêmico, divulgação na empresa, na faculdade, no Facebook. Algumas curiosidades, brigas e reencontros nesse ínterim. Enfim, minha primeira experiência como “blogueiro”. Para dizer a verdade, nunca tive nenhuma pretensão de me aventurar pelos caminhos cibernéticos, mas como a condição se transformou em obrigação (a criação do blog foi proposta de uma disciplina da faculdade), chamei a responsabilidade e dei forma ao Blog do Insulano. E nesse tempo todo só me coloquei uma única vez na história, exclusivamente pra comemorar meu primeiro ano na Ilha do Governador. E agora… Anuncio, sem muito alarde, que o Blog do Insulano vai dar um tempo a partir de hoje.

Na legenda, o adeus e um grande abraço pra todos! Valeu, galera! =D

Não pretendo abandonar a página, apenas dar um tempo. Com tanto trabalho, turmas de treinamento, provas na universidade, família, fica complicado tirar o dia de folga (único na semana) pra montar as pautas e tirar as fotos. Mas quem sabe consigo transformar o espaço em algo profissional? Resposta que um futuro breve me dará, se Deus quiser. Então, quero agradecer demais a todos os acessos e comentários, minha rapaziada dos treinamentos, meus amigos que sempre me deram força, minha mãe e o Marley (que me acompanharam aos lugares sempre que puderam), aos meus companheiros de empresa, de Facebook e tal… Um grande abraço para todos e em alguns meses volto com o Blog do Insulano. Fiquem sempre com Deus e, como diria a música, “você, se puder, não me esqueça”…

* A foto presente no post é de autoria do Marley, pois como estou nela, não havia condições de tirar… Ora…

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Já em clima nostálgico, o Blog do Insulano procura um desafio para o post histórico da semana: afinal, o que vem a ser a Ponte Nova da Ilha do Governador? E a Ponte Velha? Qual é o motivo dessas denominações, se ambas levam ao mesmo destino? Uma é mais importante que outra? É uma provação responder a todas essas indagações, mas o possível será feito!

O encontro das duas pontes na entrada da Ilha do Governador: a engenhosidade do homem surpreende.

Na década de 40 a Ilha não possuía um acesso terrestre ao continente, como já foi visto em outros textos. Entretanto, com o desenvolvimento local e as bases militares já em pleno funcionamento, houve a necessidade de um acesso mais fácil e constante à cidade do Rio (anteriormente a condição se dava através de navios, que partiam do Porto da Freguesia). Por isso, em 1949 a Ponte do Galeão foi fundada. A ligação era da Ilha do Governador para a Ilha do Fundão. Depois, do Fundão para a Avenida Brasil.

A Ponte Velha (também conhecida como a Ponte do Galeão) foi constrída em 1949 e possibilitou o crescimento da Ilha.

Tal fato foi o que propiciou o crescimento populacional e econômico da então pacata ilha do Rio de Janeiro. A população aumentou de 29 mil habitantes na data citada para 200 mil nos anos 90! Em um primeiro momento, o acesso era feito em apenas uma única pista, que funcionava em mão dupla. 4 anos após a inauguração, outra ponte foi erguida, com o objetivo de estabelecer mãos diferentes e, dessa forma, amenizar o fluxo intenso que já estava começando a se formar na região. É claro que o empreendimento não foi o suficiente para aliviar os engarrafamentos que se estendiam por quilômetros. Com isso, uma nova ponte  foi erguida, dessa vez levando diretamente para uma via de acesso expresso, então denominada como “Linha Vermelha”.

Na base, o acesso para Avenida Brasil. No plano superior, a Ponte Nova no acesso à Linha Vermelha.

Em 1985 a Ponte Nova foi inaugurada em meio a críticas da população do Rio de Janeiro, que alegava ser um gasto desnecessário do dinheiro público. Para a população insulana, considerado um conforto levar 20 minutos para alcançar o Centro da Cidade e a Zona Sul, fato inédito para a história do lugar. Essa comodidade não durou muito tempo, uma vez que todo o fluxo oriundo da Ilha do Fundão segue para o tal “caminho rápido”. Atualmente, ambos os acessos disputam de igual para igual a frequência. Com a aproximação dos grandes eventos esportivos no Rio, outra alternativa foi proposta para amenizar os problemas causados pelo tráfego intenso: uma nova ponte na entrada da Ilha! E essa possibilidade já tem nome… Sim, a Ponte Estaiada já é uma realidade e, em poucos dias, será inaugurada e disponibilizada para a população.

A Ponte Estaiada já é uma realidade e está quase concluída: expectativa de ser o novo cartão postal do Rio.

É fácil se sentir em um emaranhado de concreto quando se passa de condução pelo local. Para os desavisados, inexperientes ou até os mais atentos, chega ser surpreendente perceber as engenhosidades do homem e a complexidade das estruturas. Mérito dos insulanos adaptar-se com tanta naturalidade ao local!

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira e foram modificadas através de programas de manipulação de imagens.

Em junho de 2010 a área conhecida como “perna seca”, Ala Sul do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (mais conhecido como o Hospital do Fundão), foi completamente desocupada após estalos ouvidos na estrutura do prédio. Na época, a Prefeitura mobilizou um grande esquema para a desativação do local e a interdição da Linha Vermelha, para que uma implosão fosse realizada. Segundo o engenheiro Fábio Bruno, responsável pela empreitada, o procedimento ocorreu sem nenhum imprevisto: “Não houve lançamento de concreto para outras áreas, somente muita poeira”, argumenta.

Após um ano da implosão, entulhos permanecem na localidade, causando transtornos e apreensão.

A intenção da reitoria da UFRJ era construir outra casa de saúde, mais moderna, na região desocupada. O prazo para a inauguração do hospital era para o final de 2011. Entretanto, o que se pode observar atualmente é o espólio da antiga estrutura. O entulho, que chega alcançar dois metros em alguns pontos, até o momento não foi removido pela Prefeitura. A direção do hospital, por sua vez, descarta a abertura de licitações para a venda dos escombros, afirmando que o material é reciclável e que a melhor maneira de reaproveitamento está sendo analisada.

O local transforma-se em criadouro de insetos e propagador de bactérias nocivas para os internados no Hospital do Fundão.

Enquanto isso, focos do mosquito da dengue, ratos e baratas acumulam-se no local. Outro fato que alarma é a poeira acumulada, que ameaça a qualidade do ar e proporciona o alastramento de possíveis bactérias para a área interior do hospital. O prédio foi construído na década de 50, possuía 14 andares e nunca foi utilizado pela instituição. Localizava-se no campus mais importante da universidade, frequentado por 3.500 funcionários, 1.200 alunos de medicina e outros 2.000 alunos ligados a áreas de saúde.

Em uma tarde de domingo com sol ameno, o Blog do Insulano visita o primeiro bairro oficializado da Ilha do Governador. Foi lá onde tudo começou, a primeira igreja foi erguida, os portos foram abertos, as bases militares foram construídas… Após a Capela de Nossa Senhora da Ajuda ter sido inaugurada, os fiéis católicos (ou fregueses, daí o nome do lugar) compareciam para o comércio, para morarem e, é claro, para o conforto espiritual. Em alguns anos, a simples capela deu lugar a Igreja Nossa Senhora da Ajuda, hoje tombada pelo IPHAN. Em frente, localiza-se a Praia da Guanabara, a maior da Ilha, com mais de 1 quilômetro de extensão e uma vista única da Baía da Guanabara, da Serra dos Órgãos e do Dedo de Deus (os dois últimos na longínqua região serrana do Estado do Rio).

A Avenida Paranapuã, o seio do mar, transforma um simples percurso num passeio de rara beleza!

O acesso se dá através da Avenida Paranapuã (que no dialeto indígena significa o “seio do mar”). Ainda que a poluição maltrate a natureza e macule todo o espetáculo visual, não há possibilidade de ficar alheio à paisagem. O mar agracia lentamente todo o percurso, e as construções antigas remetem aos áureos tempos do bairro: era lá que a primeira linha de bondes (Ribeira – Cocotá) encontrava seu retorno. Nessa época o mercado que mais crescia era o de hotéis, e é comum encontrar em seu entorno diversos estabelecimentos do tipo. Triste é observar a degradação, previsível, desses lugares…

No início, uma simples capela. Atualmente, a Igreja Matriz tombada pelo patrimônio histórico nacional.

O mercado atual não é muito vasto, transformando o bairro em um dos mais residenciais de toda Ilha. São alguns quiosques na orla, duas casas de festas, alguns resistentes hotéis, uma padaria, uma farmácia e dois postos de gasolina. A impressão que se tem ao visitar o local é de que o mesmo parou no tempo, com uma praça extremamente arborizada (antiga Carmela Dutra e atual Calcutá) em frente à Igreja Matriz. Ao final da orla encontra-se a famosa Pedra da Onça, um dos principais símbolos da cultura insulana e vastamente apresentado no Blog.

Alguns resistentes hotéis demonstram que o local era, sem dúvidas, uma referência em turismo. Potencial possui, falta investimento.

Vale o passeio, a atenção aos detalhes e uma visita à Rainha do Mar, Iemanjá, brilhantemente representada em uma gruta dentro da praia! É a diversidade cultural surpreendendo e renovando a Freguesia!

Durante o passeio, vale a visita à Rainha do Mar, brilhantemente representada numa gruta dentro do mar!

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira.

Na última semana, a coluna de Ancelmo Góes afirmou que a Praia da Guanabara seria revitalizada, para alívio e alegria dos insulanos. Aproveitando a pesquisa histórica, o Blog do Insulano verificou se tal informação realmente era fato. Grata surpresa observar que muito já foi feito, e com apenas algumas iniciativas. Como exemplo, vale ressaltar o monumento ao Gato Maracajá, que já não apresenta nenhuma pichação, somente deterioração na cabeça da escultura; a areia e a beira da praia não acumulam tanto lixo e todo o asfalto do terminal rodoviário está em processo de substituição.

O calçamento do entorno já está sendo refeito, a limpeza do lugar já consegue surpreender.

E as novidades não se restringem a tais procedimentos. Segundo a página oficial do “Grupo de Amigos da Ilha” no Facebook, muito ainda está previsto antes da conclusão das obras: mesas de jogos serão instaladas no local, uma unidade da Academia da Terceira Idade funcionará nas proximidades e toda iluminação pública será reformulada. A obra conta com o apoio da Secretaria de Conservação, da Qualidade de Vida e Envelhecimento, da Rio Luz, da Supply Brasil e dos Transportes Paranapuan.

Nenhuma pichação aparente, um visual muito mais limpo, e o projeto prevê muito mais.

São essas pequenas e imprescindíveis iniciativas que incentivam e estimulam o trabalho do Blog, mostrando que o progresso é possível quando existe um mínimo de zelo e atenção. Afinal de contas, a história que se apresenta aqui somente é possível com um primeiro passo. Logo, valorizar uma herança tão rica e democrática é obrigação de todo insulano. As futuras gerações agradecem!

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira.

Em algumas ocasiões, o Blog do Insulano menciona que a Ilha do Governador é a tal ilha atípica, já que em quase nada lembra o que foi em sua essência. Entretanto, alguns fatos, a cultura e os templos religiosos remanescentes ajudam a contar a história desse lugar. Nesse momento, o blog vai fazer uma viagem em 400 anos, quando a primeira igreja foi levantada em domínios insulanos! Inclusive, existem projetos que visam atuar com o turismo nessa região. Portanto, tais conhecimentos são imprescindíveis para quem deseja enaltecer as belezas de sua querida Ilha!

Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A data de inauguração é aproximada, pois não existe um registro oficial que apresente a informação.

Atualmente existem mais de 20 igrejas católicas em toda Ilha do Governador (isso sem mencionar os templos protestantes e as casas espíritas), mas para iniciar o passeio, foca-se em três santuários específicos, aqueles que já presenciaram tantos e tantos acontecimentos.

Ainda que próxima aos lugares mais movimentados da Ilha, a Igreja transmite tranqulidade e paz ao local.

O primeiro pode ser estimado como o marco-zero e sua data de inauguração é algo próximo de 1662. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição é considerada patrimônio histórico nacional e encontra-se na Praia da Bica, no Jardim Guanabara. Ainda que modesta em suas dimensões, acrescenta ao cenário uma aura de tranquilidade e paz! Passou por diversas reformas que culminaram em sua descaracterização. Todavia, no ano 2000 foi realizada uma última restauração, que devolveu suas feições originais. Um fato curioso é que a igreja enfrentou diversos saques, tendo suas imagens roubadas (informações davam conta que as mesmas foram trazidas da Alemanha). No altar atual há somente réplicas de gesso.

É no bairro da Freguesia que a primeira Igreja insulana foi construída. Monumento histórico, com quase 400 anos de existência.

A segunda paróquia visitada é a de Nossa Senhora da Ajuda, na Freguesia, foi construída em 1710 e abrigou o primeiro cemitério insulano, como visto em outro post. Foi totalmente devastada por um incêndio em 1871. Da construção original sobrou somente as paredes externas. Quase 30 anos depois, em 1900, uma nova estrutura foi apresentada. Em 1904 o cemitério foi transferido para o bairro do Cacuia, possibilitando uma obra de expansão. Hoje quase todas as celebrações são realizadas no anexo, porém a imponência do templo original permanece inalterada, às margens da Praia da Guanabara.

No alto do Morro D'Ouro, um oáses: a Igreja da Sagrada Família, imponente e soberana!

Para completar, a Igreja da Sagrada Família, na Ribeira, única e admirável no alto do Morro D’Ouro, é famosa por transportar seus visitantes a lugares impensáveis para uma metrópole. Sua inauguração data de 1913 e a mesma foi construída por iniciativas de moradores dos bairros adjacentes. Tal processo foi necessário por conta da afastada localização da igreja matriz (Nossa Senhora da Ajuda). Outra observação pertinente é que, diferentemente das outras construções edificadas de maneira de possibilitassem o fácil acesso, a Igreja da Sagrada Família é localizada no cume de um morro. Talvez seja justamente por esse motivo que a vibração do lugar seja genuína e exclusiva.

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira e foram modificadas através de programa de manipulação de imagens.

Ainda sem alvoroço e observada com muita cautela, uma nota foi publicada no blog de Ancelmo Góes, colunista do Jornal O Globo, mencionando que, em breve, a Pedra da Onça, na Praia da Guanabara, será reformada. A subprefeitura irá restaurar o monumento, apagando as pichações da estátua, além de limpar as adjacências. Com toda segurança, é uma notícia mais que bem vinda e aguardada por todos os insulanos há décadas. A imagem é, sem dúvidas, um dos principais símbolos culturais da Ilha do Governador, fornecendo ao cenário um toque de misticismo e veneração.

Projeto prevê a restauração da Pedra da Onça, um dos maiores símbolos da cultura insulana.

Segundo alguns estudiosos, uma índia que morava na região adotou um gato selvagem (muito parecido com uma onça quando adulto, daí o nome da escultura) e todos os dias o levava em suas caminhadas pela orla. A principal distração da nativa era pular da pedra para o mar. Em dado momento, a índia mergulhou e não voltou mais. Seu animal de estimação, fiel, lá permaneceu a sua espera, dias a fio, até morrer de fome. Esse conto, não confirmado pelos historiadores, inspirou um grupo de moradores, na década de 20, a perpetuar a história. 45 anos após, o monumento, já bastante castigado pela ação do tempo, foi substituído por um outro, que lá se encontra até os dias de hoje.

A coluna esclarece que o entorno também será contemplado. Justo empenho para uma das áreas mais bonitas da Ilha.

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira.

Há alguns meses, o Blog do Insulano esteve na estação das barcas do bairro do Cocotá e encontrou um autêntico cemitério de embarcações. Na verdade, tais veículos eram sucatas e suas peças estavam servindo para as barcas em funcionamento, o que justificava o fato de estarem atracadas no lugar. O problema, como observado anteriormente, é que a água parada acumulada no local é propício foco para o mosquito da dengue, além de demonstrar total descaso das Barcas S/A – concessionária que administra o serviço e é responsável pelo trajeto (Cocotá – Praça XV). A notícia boa é que as barcas, que não estavam sendo capazes de manter-se na superfície, foram removidas e tal comportamento é somente parte do processo de retirada das embarcações deterioradas.

Em setembro, barcas que não conseguiam manter-se na superfície, devido ao estado de degradação.

Somente a barca Visconde de Moraes permanece na estação, mas a administradora antecipa-se e observa que o processo de retirada ocorrerá em, no máximo, 3 meses. Em recente visita ao local, também foi possível perceber que a estação foi remodelada e as placas indicativas foram, quase em sua totalidade, substituídas por outras mais modernas. Outra notícia é que, com o aumento da demanda para o transporte aquaviário, a concessionária está aumentando o número de viagens. Atualmente são 10 viagens diárias em um turno que vai de 06:30h até às 20h. Vale ressaltar que o transporte não funciona aos finais de semana e feriados.

Um mês depois, um visual muito mais limpo. Somente uma barca permanece no local, e já existe prazo para que saia do lugar.

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira.

Feriado de 02 de novembro, Dia dos Finados, e o Blog do Insulano convida para uma viagem, no mínimo, inusitada. Conforme já mencionado em outras oportunidades, é de conhecimento geral que a única necrópole da Ilha do Governador é localizada no bairro do Cacuia. Mas alguém já ouviu falar que esse não é o primeiro cemitério insulano? Sim, isso é fato, e o post procura esclarecer um pouco mais a respeito! O Cemitério do Cacuia data de Janeiro de 1904 e ocupa mais de um quarteirão de todo o bairro. Os muros são baixos e as sepulturas, por mais macabro que possa parecer, estão ao alcance de tudo e de todos. Como é concentrado numa espécie de planície, a superfície e o tradicional Cruzeiro das Almas do mesmo são facilmente observados desde o portão principal, impondo respeito e silêncio.

No alto da planície, a vista de boa parte da Ilha do Governador e uma comunidade que se desenvolve rapidamente.

Anteriormente, os insulanos mais ricos e provedores da Igreja Católica repousavam no bairro da Freguesia, mais especificamente na Igreja Nossa Senhora D’Ajuda. Conta a lenda que nos dias que antecediam o carnaval, uma lista com os nomes de pessoas marcadas para morrer era fixada nos muros do cemitério, nesse momento já estabelecido no local atual. Os mais antigos afirmam que esse fato foi o grande responsável por extinguir a folia do lugar por anos. O curioso dessa circunstância é que a quadra da escola de samba União da Ilha do Governador é localizada metros a frente! Ainda que o cenário propicie meditação e respeito aos mortos, a curiosidade por vezes assola os mais atentos visitantes: os detalhes são surpreendentes!

Antes da transferência a o local atual, os insulanos eram sepultados da Igreja de Nossa Senhora D'Ajuda, na Freguesia.

Somente para situar, os cemitérios que se conhece atualmente nada mais são que iniciativas impostas pela higiene pública das metrópoles brasileiras. Ainda durante o império (quase um século antes da inauguração do campo santo da Ilha), os corpos dos mais abastados eram sepultados em igrejas ou, quando muito, em áreas nas adjacências dos templos. Mas em tempos de surtos de doenças contagiosas (como a tuberculose e a Doença de Chagas), a permanência de corpos em locais públicos transformava-se em sérios problemas para a saúde dos cidadãos. Com a modernização das cidades e a crescente população, a solução foi estabelecer locais específicos para as cerimônias fúnebres e o repouso eterno. Assim, criou-se o que hoje se conhece como “cemitério”. O primeiro do Brasil, segundo alguns estudiosos, foi construído em províncias de Pernambuco.

O que se conhece como cemitério atualmente, nada mais é do que uma medida urgente para coibir a proliferação das doenças contagiosas, já que os sepultamentos ocorriam nas igrejas católicas.

Muito antes de conceber esses locais com uma aura funesta e mórbida, as grandes nações estimulam a visitação e chegam a incluir os cemitérios nos roteiros turísticos de suas cidades, como acontece em países como França (Père-Lechaise, Paris), Estados Unidos (Forest Lawn, Los Angeles) e Argentina (Recoleta, Buenos Aires). Na verdade, eximindo-se completamente de preconceitos ou crendices, os lugares são verdadeiros museus a céu aberto, com esculturas de renomados artistas e contos que atravessam séculos. A estrutura que certos jazigos demonstram, por exemplo, são referenciais do quanto a sociedade modernizou-se no decorrer de sua história, além de apresentar os costumes dos habitantes mais antigos. Para tanto, o desafio é simplesmente deixar-se envolver pela rica cultura que qualquer lugar do mundo é capaz de propiciar e manter o respeito pelos que já se foram. Como diz uma placa que recepciona os visitantes do São João Batista: “visite-os antes que você se torne a atração”.

Alguns países no mundo utilizam seus campos santos como mais uma atração turística, verdadeiros museus a céu aberto.

* Todas as fotografias presentes no post são de autoria de Rafael Vieira e foram modificadas através de programa de manipulação de imagens.